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No Brasil, data artist Jer Thorp fala sobre a importância de humanizar dados

Para especialista canadense, dados podem ser usados para contar histórias e, consequentemente, gerar valor para pessoas.

O canadense Jer Thorp não gosta muito do termo big data. Algo que à primeira vista pode soar um pouco incoerente, já que Thorp tem se tornado na última década um respeitado nome quando o assunto é exatamente este e mais, já que tem para si o título de data artist.

Eduardo Lopes
Foto de especialista em Data Humanism


Thorp também é um dos fundadores do The Office for Creative Research, grupo multidisciplinar de pesquisa que explora novas formas de engajamento com dados e durante dois anos ocupou a cadeira de data artist no New York Times.

Mas não pense que Thorp desdenha o big data e toda sua vocação. Na verdade, ele defende um termo mais preciso, algo mais tangível e para ele mais valioso: o tiny data.

"Só neste ano 8.375 artigos no New York Times mencionam o termo Big Data. Mas o que as pessoas não falam muito sobre é exatamente sobre a experiência de viver neste mundo de dados", diz Thorp durante o KES - Knowledge Exchange Sessions, evento que reúne palestrantes para discutir temas como big data, Internet das Coisas e novos modelos de negócios impactados pela tecnologia, que aconteceu no dia 16, em São Paulo.

O grande volume de dados que geramos no acumulativo dos dias é algo que tem preocupado corporações, governos e numa escala mais íntima e pessoal você mesmo. Ao mesmo tempo que empresas se direcionam para desenvolver mecanismos e tecnologias para melhor entender seu consumidor e, consequentemente, adquirir maior receita, indivíduos são apresentados por um reflexo de seus próprios dados. Ou você já não se incomodou com os algoritmos usados por anunciantes e até mesmos que redes sociais usam para 'persegui-lo' por toda Internet?

Para Thorp, o termo big data pode mascarar um pouco a ideia do próprio valor implícito nos dados. "Nós trabalhamos com centenas de pontos de dados, e por que eles são interessantes nós conseguimos fazer alguma coisa com eles. E esta é a razão porque eu não gosto do termo Big Data, por que sugere que o valor vem apenas com toneladas de dados. E nós sabemos que este não é o caso", diz em entrevista ao IDG Now!

A forma como lidamos com esses dados mudou nosso comportamento para sempre, ressalta, mas a questão nesse caso é ver a beleza em um cenário mais completo. Algo que um data artist, por exemplo, pode desempenhar bem.

Um artista de nossos tempos

Nada soa mais contemporâneo que abordar dados sob uma perspectiva artística. Não à toa, um dos projetos mais recentes de Thorp foi exposto em uma das galerias do MoMa - Museum of Modern Arts de Nova York.

Mas a ambição do canadense não é colocar dados em uma "moldura" ou em um pedestal. Criar concepções artísticas, gerar visualizações gráficas a partir de uma amostra de dados torna mais fácil a compreensão dos mesmos. E ao ser inteligível para as pessoas, torna-se mais fácil que tais dados realmente gerem algum valor.

Thorp também defende que em um futuro não muito distante, teremos um relacionamento mais próximo com nossos dados. Se a proposta é usá-los para criar espécies de histórias, narrativas, os próprios podem - no futuro - ocupar um espaço semelhante das fotografias. Como exemplo, ele mostra um gráfico circular que concentra toda a atividade diária dele em Nova York, cidade onde mora há cinco anos.

"Nós coletamos evidências das nossas vidas, esses dados podem mostrar lembranças, indicar o que fizemos em certas épocas. Uma nova forma de narrar histórias", diz.

Se dados podem contar histórias e dar uma visão ampla e ao mesmo tempo precisa de comportamentos e contextos, com eles é possível obter informações valiosas - como se tem visto com a análise de dados aplicados em estudos científicos para a cura do câncer - e revelar cenários até então desconhecidos. "Dados nos ajudam a obter melhores perguntas", ressalta Thorp.

Em entrevista ao IDG Now, o data artist fala sobre as perspectivas de um novo universo baseado em dados, engajamento e como esse novo cenário exigirá das gerações futuras.

IDG Now! - Você defende a importância do 'tiny data' ante o 'big data'. Nesse universo complexo de dados, é possível que todo dado tenha valor?

J. Thorp - No nosso estúdio [The Office for Creative Research], nós trabalhamos com centenas de pontos de dados, e por que eles são interessantes nós conseguimos fazer alguma coisa com eles. Nós também trabalhamos com projetos que têm um bilhão de pontos. E é esta é a razão porque eu não gosto do termo Big Data, por que sugere que o valor vem apenas com toneladas de dados. E nós sabemos que este não é o caso.

Eu gosto de usar a metáfora de um avião. Quando você está nele, a dois mil pés de altura, você vê o mundo de uma forma diferente. Você vê as ruas, um padrão que você nunca viria a partir do chão. Você pode ter a visão da cidade que você nunca teria, mas é claro que você perde muito. Você perde os sinais, os cheiros, os sons, as pessoas. Nesse sentido, você precisa conhecer os dois. Você precisa sobrevoar a cidade e estar nela.

E é isso que nós estamos aprendendo com o Big Data. Ele permite que nós consigamos ver sistemas em um alto nível, mas nós perdemos coisas se não olharmos em uma escala menor. E para mim esta é a questão mais importante para se lembrar. Nos últimos cinco anos as pessoas estão vendo as coisas numa perspectiva que elas nunca tinham visto antes e isso é incrível e nos mudou. Mas também é importante lembrar que nós estamos na fase inicial e que o desenvolvimento disso levará um tempo.

IDG Now! Uma coisa que você defende também é a alfabetização de dados. E só por meio desta educação conseguiríamos nos beneficiar de um contexto baseado neles.

J. Thorp - Eu nasci em 1975 em uma era onde os computadores começavam a surgir. E eu assisti o surgimento e desenvolvimento da Internet. Mas de verdade, a Internet só foi se tornar o que é com a primeira geração de garotos que cresceram com ela, como o Mark Zuckerberg, pois esta geração entendia a Internet de uma forma diferente.

Por mais que eu goste de pensar que eu serei capaz de ler esses dados de uma forma diferente, as coisas realmente inovadoras vão vir com a próxima geração. As pessoas para quem isso é natural, é a forma como elas pensam sobre essas coisas que vai mudar. Eu ainda penso sobre isso num paradigma antigo. Até que nós não compreendamos isso como nativos, nós não seremos capazes de fazer coisas novas.

Agora nós estamos em uma fase onde vamos resolver alguns dos problemas antigos que nós temos, mas isso não é o que vai ser importante. São as coisas novas que virão disso, que nós ainda não conseguimos visualizar e que essa geração conseguirá, que mudará nossos paradigmas.

IDG Now! - Grandes empresas e corporações utilizam nossos dados em detrimento de seus negócios. Mas como nós podemos usar dados em nosso favor?

J. Thorp - Esta é uma mudança na qual eu realmente estou muito interessado. Como essa tecnologia irá na direção de pessoas, e como alguns grupos estão se dedicando a esse trabalho nesse momento.

Eu acredito que pessoas que trabalham nessas companhias, a maioria delas querem o bem. Mas sabemos que não é assim que o sistema funciona. As empresas não ajudam pessoas a ficarem mais saudáveis porque é algo bom para elas. E é o mesmo que acontece com os dados.

Nós não podemos pensar que essas grandes corporações querem nos ajudar. Nós precisamos pensar como empoderar nós mesmos para nós nos ajudarmos. E nós vemos uma série de coisas interessantes, iniciativas em nossa comunidade que tomam isso para si, e isso é realmente excitante para mim.

IDG Now! - E como nós podemos então nos empoderar usando nossos dados?

J. Thorp - Eu acho que a primeira questão é estar consciente de que isso está sendo medido. Pensar como essas ferramentas estão sendo usadas para coletar seus dados. Quando eu compro uma pulseira inteligente, eu a quero porque ela vai me ajudar a ficar mais saudável? Mas o que isso significa? Se você ler os termos de politica de privacidade desses aparelhos, você vê que eles realmente podem pegar seus dados para aplicá-los em qualquer outra iniciativa. Então, o que é isso?

Eu adoraria ter a ideia de que pessoas realmente estão se tornando mais saudáveis, mas todos esses dados biométricos estão sendo vendidos para corporações que não vão usá-los para o seu melhor interesse. Então eu acredito que tudo é uma questão de se perguntar por que? Qual é esse modelo de negócios?

IDG Now! - Então, seu conselho seria ir na direção contrária de todos esses dispositivos?

J. Thorp - As pessoas precisam fazer suas próprias decisões, mas elas precisam se perguntar mais antes de simplesmente clicar o botão de OK. O que nós estamos dando e o que estamos recebendo de volta? Se é bom para você, então ok. Mas nós deveríamos colocar uma pressão maior nessas companhias, para fazer a coisa certa. E a pressão não está apenas em não clicar. A questão combina o não clicar e enviar e-mails, petições sobre como esses dados serão usados e o que teremos de benefício deles. Se pessoas suficientes fizerem isso, acredito que teríamos sim mudanças. Mas é um caminho difícil e depende de muitas pessoas se perguntarem, fazerem essa pergunta.

Dados são a nova moeda dos negócios, da nossa economia e a pergunta é como eu estou sendo parte nesse mundo e como eu posso me tornar mais empoderado? Coisas como as quais eu descrevi, não aceitar termos por exemplo, bem é um bom começo.

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