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Será que estamos em uma bolha?

Saiba se sua empresa está em uma bolha e o que pode ser importante saber nesses casos.


Mão com um alfinete tenta estourar uma bolha



Podemos classificar como uma bolha quando os preços dos ativos não correspondem mais aos seus fundamentos, ou seja, não há nenhuma explicação técnica para que os preços subam. Recentemente tivemos um grande exemplo de bolha na economia mundial a crise do subprime que foi uma bolha no setor imobiliário norte americano onde o crédito fácil e sem controle chamados de créditos ninja (compromissos de US$ 250 nos dois primeiros anos e US$ 1,000 nos anos seguintes) fez a demanda por imóveis se elevar sem que houvesse uma elevação da renda com isso os preços subiram muito rapidamente em um curto espaço de tempo.

Quando chegaram as cobranças de US$ 1,000, os donos dos imóveis percebendo que não poderiam pagar resolveram devolver os imóveis para os bancos (prática comum nos EUA), essa devolução desvalorizava os imóveis da região e as famílias que tinham financiamento começaram a fazer as contas e perceber que iriam pagar no financiamento mais do que a casa valia e decidiam devolver os imóveis criando um efeito cascata, consequentemente o endividamento dos bancos subiu muito, estourando a bolha e causando a maior recessão desde a crise de superprodução 1929.

Aprendemos na escola de negócios que o múltiplo de lucros que se deve pagar por um negócio é mais ou menos o inverso da taxa de juros. A razão para isso é que se você comprar um negócio e ganhar R$10 milhões por ano e pagar R$ 100 milhões para isso, então você está efetivamente recebendo um rendimento sobre o investimento de 10% (preço anual ganhos/compra). Esta matemática é terrivelmente simples, mas perfeita para os fins deste post.
Se as taxas de juros são de 5% em vez de 10%, então você pagaria US$ 200 milhões para o negócio ($ 10 milhões/ $200 milhões = 5%). Assim, a matemática aqui são taxas de juros = preço anual ganhos/compra. Novamente, isto é muito simples, pois não lidar com as questões importantes de que taxa de juro você usa, como você lida com os lucros que estão crescendo ou em declínio e mais uma série de outras questões. Mas no final do dia, essa matemática [preço anual ganhos/compra = rendimento] é fundamental e tudo sobre os valores, mercados de capital e valorizações, derivam dele.

Desde a crise financeira de 2008, os responsáveis políticos do mundo desenvolvido têm mantido as taxas de juros em zero ou perto disso. Eles têm inundado o mercado com dinheiro barato (via políticas monetárias expansionistas que significam maior emissão de moeda reduzindo as taxas de juros o que aqueceria a demanda agregada e, por consequência, o consumo) na tentativa de curar as feridas (perdas) da crise financeira e incentivar empresários a investir e fazer crescer seus negócios devido a baixa taxa de juros que torna mais barata a aquisição de crédito para a expansão da capacidade produtiva.

Isso não funcionou muito bem, mas eles têm trabalhado um bocado. Apesar de suas palavras terem mudado nos últimos anos, suas ações não mudaram muito. Estamos ainda em um quadro político em que o dinheiro é mais barato e as taxas de juros estão perto de zero para alguns países desenvolvidos - já entre os emergentes o processo é o contrário, podemos citar como exemplos Índia e Brasil estão em processo constante de elevação da taxa de juros, o Brasil elevou sua taxa de 7,25% a.a. para 11%a.a e a Índia elevou sua taxa de juros em 5,25% apenas em Janeiro de 2014. Mas, mesmo nos países desenvolvidos isso já não é 100% real, os EUA, por exemplo, já colocaram em prática um processo chamado tapering (política monetária contracionista que acabará, no curto prazo, elevando as taxas de juros do país).

Se você voltar e aplicar a fórmula [rendimento = lucro/preço de compra] e utilizar zero para taxa de rendimento/juros, então pagaria uma quantidade infinita para um fluxo de ganhos. Claro que não faz sentido e isso não aconteceu. Mas as valorizações são em níveis extremos porque você não pode obter um retorno decente sobre o seu dinheiro fazendo outra aplicação devido à baixa taxa de juros do tesouro americano.

Em algum momento isso vai mudar. O rendimento de 30 anos do tesouro público norte americano foi de 5% desde a crise financeira. Se (quando?) ele receber de volta uma faixa de 6-8% que foi para a maioria da década de 1990 estaremos em um lugar diferente. Aqui está uma história de 40 anos sobre os 30 anos do rendimento do tesouro. Você pode ver que estávamos em um ambiente de taxa muito baixa por um tempo.

A outra coisa que temos notado é que este ambiente de baixa taxa causou índices de valor de ativos/lucro não linear. O que você normalmente vê é a relação valor/lucro crescer linearmente com taxas de crescimento. Se os lucros estão crescendo 20% ao ano você começa uma relação valor/lucro de X. Se os lucros estão crescendo 40% ao ano, você tem uma relação de valor/lucro de 2x.

Mas o que estamos vendo é que você começa algo que se parece mais exponencial do que linear quando você começa a modelar esta taxa de crescimento de lucros elevados. Quando as taxas de crescimento dos lucros chegar a 50-100% ao ano e parece que eles podem continuar a crescer em anos, você terá um valor/lucro surpreendente. Parece que os investidores estão tão carentes de retornos que estão dispostos a pagar muito mais para os ganhos que possam crescer rapidamente.

É a combinação desses dois fatores, que são na realidade apenas um fator (dinheiro barato/taxas baixas), que é a causa raiz do ambiente de valorização onde estamos. E a resposta para quando/se ele vai acabar se resume a quando/se a economia global começa a crescer mais rapidamente, sugando o excesso de liquidez e responsáveis políticos começam a se apertar no regime de dinheiro fácil (o que já está ocorrendo como falado anteriormente).

Não temos nenhuma ideia de quando e se isso vai acontecer. Mas até lá, acreditamos que vamos continuar a ver múltiplos EBITDA (quanto a empresa gera de recursos em suas atividades operacionais) surpreendentes para as empresas de tecnologia de alto crescimento. E essas empresas de tecnologia com múltiplos EBITDA surpreendentes vão usar suas ações valorizadas para comprar outra tecnologia de negócios de alto crescimento e estratégias ativas de avaliações surpreendentes.

Tem sido um bom momento para estar no VC (capital de risco) e negócios startup e consideramos que vai continuar a ser, desde que a economia global continue fraca e com baixas taxas.

Agradecimento especial a Victor Silva de Oliveira
Economista pelo IBMEC.

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