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Qual o impacto do "direito de desligar"?

A lei que dá aos trabalhadores o "direito de se desligar" na França entrou em vigor a 1 de Janeiro e aplica-se às empresas com mais de 50 trabalhadores. Mas qual será o impacto na produtividade?


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No dia 1 de janeiro entrou em vigor, uma lei que dá aos trabalhadores o "direito de se desligar" do correio eletrônico, das mensagens e das chamadas no horário pós-laboral.

Em Portugal, o Governo pondera a hipótese, desafiando empresas a trabalhadores a debater o tema no âmbito da negociação coletiva.

Mas, qual será o impacto desta restrição de acesso pós-laboral ao correio eletrônico? Aumentará ou reduzirá a produtividade nas empresas? Os especialistas respondem.

As mensagens de correio eletrônico que chegam durante a noite, ao fim-de-semana ou durante as férias podem gerar stress e afetar a vida familiar.

A cultura "sempre ligado" pode também ter impacto na produtividade a longo prazo, porque os colaboradores não têm oportunidade de descansar e recarregar energias, dizem os analistas.

Há empresas que já estão atentas a esta questão. A título de exemplo, o fabricante de automóveis alemão Daimler criou um recurso opcional chamado "Mail on Holiday" que apaga automaticamente as mensagens de correio eletrônico que chegam durante as pausas dos colaboradores.

Através de uma mensagem de resposta automática dá aos remetentes contatos alternativos ou sugere o reenvio da mensagem após o retorno dos colaboradores. Está disponível para 100 mil trabalhadores na Alemanha.

Esta medida "evita o congestionamento das caixas de entrada, alivia a pressão de ter de ler mensagens durante as férias e a caixa de entrada está vazia quando o empregado volta ao trabalho", explica a Daimler no Guia do empregado.

A lei francesa entrou em vigor no dia 1 de Janeiro e obriga as empresas, com mais de 50 empregados, a criar uma regra de "desligamento" que regule as comunicações fora do horário de expediente e durante as férias.

A nova lei está incluída num pacote de reformas nas leis laborais que torna mais fáceis a redução dos salários e de postos de trabalho. Durante o Verão, milhares de pessoas saíram às ruas em protesto contra este pacote.

"Uma vez que a lei estava a ter uma aceitação difícil em França, foram incluídos alguns 'mimos'", disse o consultor da OpenVMS, Gerard Calliet. Entre esses "mimos" inclui-se a "lei do direito de se desligar". No entanto, para Calliet, desconectar-se não é uma opção quando se está a falar do trabalho com o cliente.

França alterou as leis laborais para ajudar a reduzir 10% a taxa de desemprego. Mas, James W. Gabberty, professor de sistemas de informação na Universidade de Pace em Nova Iorque diz que a regra do e-mail só vai prejudicar a produtividade.

A inspiração não se limita ao horário laboral, explica Gabberty. "Depende do pensamento criativo espontâneo" que pode incluir capturar aqueles "fugazes momentos de puro gênio" num e-mail, mesmo que ocorram depois do jantar ou durante a noite".

Os gestores podem pensar que estão a ter um impacto de curto prazo na produtividade com a discussão sobre o correio eletrônico durante o fim-de-semana, mas, "a longo prazo, os custos acabam por afetar todos", diz William Becker, professor associado de Gestão da Virginia Tech.

Becker foi um dos três analistas que recolheu dados junto de perto de 300 trabalhadores, cujos resultados foram publicados no Verão passado.

"Descobrimos que as pessoas não serão capazes de se desligar do trabalho e recuperar" se estão a gastar o tempo livre a trabalhar, sublinha Becker.

Os empregados ficam exaustos e desinteressados do trabalho. Podem criar-se problemas familiares e o empregado tornar-se infeliz no trabalho. Mas, a "desconexão" é difícil, em especial para pessoas que trabalham em TI.

Sobre a lei, "pessoalmente, penso que é uma política fantástica que devolve as vidas às pessoas", assinala Alan MacDougall, diretor de tecnologia de educação na Universidade de New Haven. No entanto, não consegue imaginar-se a cumpri-la.

"Estive 12 horas sem consultar o meu correio eletrônico uma vez durante as férias de Inverno e claro, a quantidade de mensagens acumuladas foram um desincentivo para voltar a repetir a proeza", disse MacDougall. Por outro lado, também não consegue conceber a mudança da cultura norte-americana de "always on", especialmente "quando a pessoa que comanda o país não consegue desligar-se", disse MacDougall, referindo-se ao presidente eleito Donald Trump que publica no Twitter a toda a hora.

Maura Thomas, consultora de produtividade que escreveu sobre o impacto negativo das comunicações constantes para a Harvard Business Review, acredita que muitos gestores não consideram o impacto que estão a ter nos empregados ao comunicar por correio eletrônico a todo o momento.

Quanto aos trabalhadores que verificam o correio eletrônico durante a noite e aos fins-de-semana, Thomas diz, "muitos resignaram-se a aceitar que aquele é um requisito do seu emprego".

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