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A tecnologia contra a economia

Para o bem de todos, espero que os tecnológicos tenham razão, mas não vou apostar ou investir nisso.


Placa da London School of Economics

Se quer ouvir duas perspetivas completamente diferentes sobre o futuro, ponha um especialista em tecnologia e um especialista em economia num debate sobre a próxima década. Se preferir acadêmicos, pode ser um professor de engenharia contra um professor de economia. Se preferir pessoas mais práticas, pode ser um trabalhador em Silicon Valley contra um trabalhador em Wall Street. Se prefere afirmações arrojadas e tiradas bombásticas, entre numa livraria e compare os livros dos gurus tecnológicos com os livros dos profetas econômicos.

Os tecnológicos vão-lhe dizer que os próximos dez anos vão ser extraordinários. O progresso à nossa porta será maior do que alguma vez se viu. Vamos poder ir à lua de férias, o nosso cérebro vai estar ligado à cloud e extrair qualquer informação em tempo real, os drones e os robôs vão substituir o homem em milhares de tarefas. Se quiser dados, eles acenam-lhe com uma mão cheia de empresas que, baseadas num software novo e pouco mais, valem hoje milhões. Ou mostram-lhe números sobre o aumento na capacidade de computação ou das tarefas que um robô com inteligência artificial é capaz de executar. Quando são pessimistas é para se preocuparem com o futuro do homem quando todos os empregos forem substituídos por máquinas, e nas implicações que isto terá para a desigualdade.

Já os economistas notam que, nos últimos 15 anos, enquanto que a Amazon e a Apple subiam de valor, as economias avançadas tiveram um desempenho miserável no crescimento de produtividade. O valor criado pela Google e Facebook foi só um pouco maior do que o valor do setor publicitário e dos media que eles destruíram. A Uber cresce porque tem preços tão baixos que a levam a perder milhões por dia, e os usuários do Twitter ou do Instagram podem dizer que amam os produtos, mas assim que lhes pedem para pagar uns euros em troca, fogem a sete pés.

Nas previsões macroeconômicas que usam dados palpáveis sobre investimento, os números apontam para uma estagnação econômica. Nos mercados financeiros, as taxas de juro reais de longo prazo estão a níveis muito baixos refletindo a baixa rentabilidade da maioria dos setores de atividade. A liquidez é abundante, mas as empresas não têm projetos rentáveis para financiar. No setor da saúde, onde podemos medir o progresso em termos de patentes para medicamentos, o custo por um novo medicamento aumentou muito nos últimos 20 anos enquanto que o número de invenções diminuiu ligeiramente: uma grande quebra de produtividade.

Qual destas duas perspetivas está certa? Contra os tecnológicos, há séculos que os homens contam histórias de progresso fantástico sobretudo quando querem que lhes deem dinheiro para desenvolver as suas ideias. Contra os mercados e economistas está a performance medíocre das previsões sobre o crescimento numa década. Para o bem de todos, espero que os tecnológicos tenham razão, mas não vou apostar ou investir nisso até que os números dos economistas mostrem alguma coisa.

Ricardo Reis é Professor de economia na London School of Economics.

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